Alicante é a cidade da luz, da boa gastronomia e de uma qualidade de vida invejável. Mas sejamos sinceros: também é a cidade onde a paciência é posta à prova cada vez que entras no carro com a intenção de te aproximares do centro. Se Dante tivesse escrito a Divina Comédia nos dias de hoje, tenho a certeza de que um dos círculos do inferno consistiria em tentar estacionar numa sexta-feira à tarde perto da Plaza de los Luceros.

A minha relação com o estacionamento em Alicante passou por todas as fases do luto. Ao início, era negação. «De certeza que encontro um lugar rápido, vou só um momento a Maisonnave», dizia para mim mesmo com a inocência de uma criança. Erro grave. Aprendi da pior forma que em Alicante o conceito de «um momento» ao volante se traduz em quarenta minutos a dar voltas em círculo como um hamster na sua roda, a gastar gasolina e a ver o meu bom humor evaporar-se pelo tubo de escape.

A selva da Zona Azul

A ORA (a zona azul) é a minha némesis. Parece concebida para brincar com os teus sentimentos. Vais a conduzir pela Calle del Teatro, vês um lugar ao longe, o coração dá-te um salto de alegria, aceleras um pouco… e ao chegar descobres que não é um lugar: é um estacionamento reservado a motas, um contentor de entulho ou, pior ainda, um Smart estacionado tão ao fundo que não se via.

E se falamos do verão ou das horas do famoso «tardeo» na Calle Castaños, a missão passa de difícil a impossível. A concorrência é feroz. Já vi manobras dignas de Fórmula 1 para roubar um lugar que alguém acabara de deixar livre. Nesses momentos, o carro deixa de ser um meio de transporte e converte-se numa jaula de metal sobreaquecida pelo sol de Alicante.

A rendição: O parque subterrâneo

Chega a um ponto, normalmente após a quinta volta ao mesmo quarteirão, em que a resignação assume o comando. Decides entrar num parque de estacionamento subterrâneo. Aqui a dor já não é temporária, é económica. Descer a rampa do parque de Alfonso X el Sabio ou do Porto é admitir a derrota. Sabes que vais pagar o preço de um menu do dia só por deixar o carro parado um par de horas. Mas pagas, porque a alternativa é continuar a dar voltas até que o teu cartão de cidadão caduque.

À procura de estratégias de sobrevivência

Com o tempo, tive de desenvolver estratégias de sobrevivência. Aprendi que, por vezes, o barato sai caro em tempo, e que o longe, na realidade, fica perto. Comecei a valorizar os parques de estacionamento dissuasores ou simplesmente estacionar em bairros periféricos como Benalúa ou San Blas e caminhar quinze minutos. Descobri que caminhar por Alicante é agradável (se não for em agosto às três da tarde) e que esses quinze minutos a pé me poupam meia hora de stresse ao volante.

Também me rendi à evidência do TRAM. Deixar o carro longe e apanhar o elétrico rápido até ao Mercado converteu-se no meu salva-vidas mental.

Estacionar em Alicante é uma arte que requer paciência, sorte e, sobretudo, estratégia. Aceitei que o carro no centro é um estorvo. O meu conselho para qualquer pessoa que venha é simples: se puderes evitá-lo, não o tragas para o coração da cidade. E se não tiveres outro remédio, prepara-te, põe a tua música favorita, respira fundo e assume que a procura de estacionamento é a portagem inevitável que pagamos por desfrutar desta cidade maravilhosa. No final, quando finalmente estacionas e te sentas a comer uma marinera numa esplanada, esqueces tudo. Ou quase tudo.